Assim como “Frankenstein” (1931), “Drácula” (1931), também lançado pela Universal, chama a atenção do seu espectador, primeiramente, pelos aspectos cenográficos deslumbrantes. À frente de baixos orçamentos, parece miraculoso o trabalho realizado pelas duas equipes, que ambientam o público com facilidade, e de imediato, nas propostas de medo de ambos os filmes: o primeiro com o cemitério onde Henry Frankenstein (Colin Clive) roubaria corpos ao lado do seu assistente; o segundo com a abertura constante dos enquadramentos que, no castelo do Conde Drácula (Bela Lugosi), localizado na Transilvânia, valorizaria o espaço cênico de um modo tenebroso.

Algumas explicações, todavia, devem ser dadas diante desse primeiro grande momento de “Drácula”. Em primeiro lugar, é necessário destacar que além dos enquadramentos mais panorâmicos sobre o castelo, também chamam a atenção alguns planos mais fechados, como os muitos planos-detalhe sobre animais repulsivos, como ratos e alguns insetos, que complementam a caracterização sombria do castelo do personagem-título, castelo este visitado por um narrador que vai das masmorras do local até as suas partes superiores. Em segundo lugar, importante dizer que a ida de um sujeito chamado Renfield (Dwight Frye) até a residência do mesmo Drácula provoca certo estranhamento no público, é estranho observar uma moça dando-lhe uma cruz para ir visitar o monstro que mais tarde seria visto por nós. São artifícios que de fato chamam a atenção, mas os aspectos cenográficos, captados em quadros mais panorâmicos, são aqueles mais chamativos nos primeiros pedaços da fita.

Alguns outros detalhes complementam uma atmosfera inicial simplesmente macabra, a exemplo do que vemos em relação às noivas do Drácula, que passeiam pelo castelo de modo lento, sendo elas, também, donas de longos vestidos brancos, uma soma perfeita, portanto, que as relaciona a legítimas fantasmagorias. Sólida é a apresentação do longa-metragem frente à sua proposta de medo, algo que seria ainda mais consolidado a partir do momento em que acompanhamos a chegada de Reinfield ao castelo. Se o narrador nos informa sobre as masmorras, sobre aqueles animais repugnantes, e capta não apenas o vagar das mulheres vampirescas citadas aqui, como também a transformação bizarra do Conde Drácula (em um morcego), tememos pelo destino do mesmo Reinfield.

Embora visualizamos uma atmosfera sombria sendo formada de modo imediato no filme, a primeira vez a qual vemos o Drácula no seu castelo não soa tão chocante, pois o mesmo aparece de maneira elegante, vestindo um bonito terno, ditando algumas frases curtas com o seu belo sotaque do leste europeu que carrega o inglês a pronúncias curiosas. Acontece que, não muito tempo depois, veríamos os seus olhos esbugalhados, penetrantes, tornando-se uma marca assombrosa e muito estranha, lembrando que, para acentuar esse olhar sinistro, o vampiro é inteligentemente captado por close-ups. Além disso, pouco tempo depois, o pobre Reinfield tornar-se-ia uma vítima, é atacado pelo vampiro durante a noite, sendo consequentemente transformado em um bebedor de sangue.

Drácula e Reifield, então, vão para Londres depois deste ser atacado e virar uma espécie de súdito daquele. Reinfield, no entanto, é levado a um sanatório, ao passo que o personagem principal se instala num castelo localizado ao lado do hospício para onde o seu novo servo foi levado. Um dos pontos mais curiosos atrelados à dupla desde que ela chega ao país europeu é a chacina sucedida no navio que veiculou a ida de ambos os personagens à Inglaterra. Tod Browning, na direção da fita, prefere não explicitar a chacina, a matança é apenas informada para o espectador através de um jornal local. A cena não soa tão forte, visto que não é evidenciada em imagens, apenas em palavras, mas ela, claro, não deixa de somar mais traços sinistros nos entornos do personagem-título.

O elemento que mais chama a atenção quando estamos em Londres junto àqueles personagens, entretanto, se dá com o fato de o Conde Drácula perseguir duas moças londrinas. Uma delas é morta logo depois da chegada do monstro à capital inglesa, morta após ser atacada pelo vampiro, ao passo que a outra, Mina Seward (Helen Chandler), é amaldiçoada pelo sujeito ao ser mordida na altura do pescoço. Mina, depois dessa ocorrência, passa a se comportar de maneira esquisita, passa a sentir o gosto pela noite e ela diz ao seu noivo que se sente mais viva exatamente nesse momento do dia. O mais instigante novo traço relacionado à Mina, porém, é aquele em que ela mesma se torna ameaçadora para aqueles mais próximos de si, pois, como uma vampira, ela sente necessidade de beber sangue.

As investidas do Drácula contra a personagem, que acaba por se tornar uma espécie de obsessão para o protagonista, recheia a película de tensão na sua segunda metade, diga-se de passagem. Outro ponto que merece a nossa ênfase quanto às questões que envolvem a movimentação apreensiva da obra, a criação de expectativas sobre possíveis viradas, é a simples presença do Dr. Abraham Van Helsing (Edward Van Sloan), personagem responsável por criar barreiras no caminho do Conde, o sujeito que percebe a não exposição do vilão ao sol, aquele que mais entende dos recursos a serem utilizados contra os vampiros, não é por menos que, no fim das contas, é ele mesmo quem acaba movendo as engrenagens para a realização do happy end.

Embora não tão poderosa quanto aquela de “Frankenstein”, a elaboração cenográfica da fita analisada aqui, como vimos mais acima, é realmente muito positiva, colabora para a construção da proposta do medo, lembrando que esse recurso é sempre valorizado pelo trabalho da fotografia, que coordena com inteligência os tipos de enquadramento a serem utilizados em determinados instantes. Não apenas para com esses fatores, “Drácula”, do engenhoso Tod Browning, deve ser destacado por outros tantos elementos interessantes, pelos conflitos da segunda metade da narrativa, por exemplo, elementos que, quando digeridos por nós, evidenciam os motivos pelos quais o longa-metragem se tornou um clássico do terror com o passar das décadas.