Relações com seres e corpos são elementos constantes em obras de horror. Estes filmes falam de medo, estranhamentos e do desconhecido. Ao colocar em cena personagens que destoam das noções de normalidade pregadas socialmente, Mozart Freire explora, mais uma vez, as zonas cinzentas sobre as relações de posse e desejo.

Os corpos em cena são importantes por serem representações de formas menosprezadas pela moral vigente. Suas histórias de cárcere, abuso e objetificação estão presentes tanto em “Janaína Overdrive” quanto em “Pop Ritual”.

O vampiro é repelido e desejado com a mesma intensidade. Janaína se torna obsoleta. A tecnologia é um canal para que observemos e vivamos isso. Em meio a era digital e imediatista na qual tudo é quisto, adquirido, jogado fora e julgado, ambos títulos lançam no ar ideias sobre como nos relacionamos com nossos corpos e com os corpos dos outros.

Caça e caçador

Dentre os monstros do cinema de terror, o vampiro talvez seja o mais popular. O soturno chupador de sangue de Murnau ganha ares de sensualidade no fim dos anos 1950 na pele de Christopher Lee. Em “Pop Ritual” o caráter sensual pode ser visto dos desejos existentes na relação entre padre (Alcantra Costa) e vampiro (Kahlo de Oliveira), mas também nas sensações provocadas pelos enquadramentos, gestos e objetos escolhidos pelo diretor.

O padre apresenta uma imagem tradicional, de retidão, usa um traje sóbrio em cor preta e marrom. Sua expressão é semelhante a das iconografias dos mártires da igreja católica, com um olhar de piedade e medo . Este homem se move com cuidado, como se esperasse o tempo todo ser atacado.

O vampiro atado e letárgico apresenta momentos de fúria, medo e angústia. Ele grita como uma besta e chora diante do fim de sua vitalidade. Porém há um momento em que ele se penteia, se toca, se cuida, ainda que preso naquele cômodo. O cativeiro é adornado com elementos cristãos, como cruzes, imagens, oratórios e bíblias, afirmações da virtude e proteções do padre. Já o vampiro se veste com couro, corrente e outros elementos punks ou BDSM. A dicotomia fica marcada na relação sagrado e profano.

Entretanto, à medida que o padre desenvolve seus experimentos com a criatura e, principalmente, o observa e toca, surge  questionamento sobre quem realmente está cativo. Submeter o corpo do outro às explorações é a maneira de se ter liberdade para se auto explorar.

Nós, observadores

Em “Pop Ritual” existe a presença de uma TV e um aparelho vídeo cassete no qual o padre constantemente vê algo. Ao fim do filme em um momento escatológico, dentre os restos de uma gosma-gozo-exorcismo o vampiro expele uma VHS. Da mesma forma, em “Janaína Overdrive” as câmeras e tecnologias similares são presença. A própria prostituta é um simulacro high-tech.

Emulo e significo

Em Janaína. Mozart usa esses elementos tecnológicos como portas para o voyeurismo de que assiste, nos insere na máquina e dialoga com outros títulos de sci-fi que tem revoluções tecnológicas presentes. Impossível não pensar nas telas de Blade Runner ou cabos Matrix e nas pessoas dependentes das máquinas.

O que mais encanta nos curtas de Freire é a maneira como ele referencia os cinemas que o antecederam. Como supracitado na relação com a estética high-tech, elementos de terror estão em Pop. A figura do padre subindo as escadas e entrando no quarto com cautela dialogam com “O Exorcista”, a figura do vampiro, com Nosferatu e o estranhamento da sequência escatológica, Cronemberg.

Desta forma a relação de sensualidade e sensorialidade é dada na decupagem. Assim como vemos em planos abertos os locais ocupados por cada uma das personagens, somos postos próximos dos corpos ao ponto de tocar uns aos outros por meio da câmera.  a ausência de diálogos aumenta as sensações, tensões e tesões entre o par.

Sobre a vida

Protagonizado por uma mulher trans, badass e heroína, “Janaína Overdrive” discute a sobrevivência das classes baixas e marginalizadas em um local dominado por uma coorporação. Layla Kayã Sah encontra no ciberespaço a maneira de manter sua memória viva. Ainda assim essa tecnologia toda não é capaz de conter o sucateamento da vida das minorias.

No ambiente cyberpunk a discussão sobre os locais sociais ocupados e relações de dominância e dominados são dados de maneira exemplar. No ambiente soturno, os desejos tolhidos. Por mais que pareça que Mozart está chovendo no molhado e repetindo o que vem sendo dito há anos, seus curtas exercem fascínio ao tratar pessoas vistas como aberrações de maneira humana.

Ressignificando padrões ultrapassados de olhar e apresentar às pessoas, sua apresentação de corpos na ficção é múltipla e bela. Desejo vida longa ao cinema de Mozart Freire!