Título original: Color Out of Space
Direção: Richard Stanley
Roteiro: Richard Stanley, Scarlett Amaris baseado em H. P. Lovecraft
Produção: Elijah Wood, Daniel Noah, Josh C. Waller, Lisa Whalen
Elenco: Nicolas Cage, Joely Richardson, Julian Hilliard, Madeleine Arthur, Brendan Meyer, Elliot Knight, Tommy Chong
Duração: 111 minutos
Classificação: 16 – Não recomendado para menores de 16 anos
Gênero: Ficção Científica/Terror

ATENÇÃO: CONTÉM TODOS OS SPOILERS POSSÍVEIS!

Adaptar os escritos de H. P. Lovecraft não é uma tarefa fácil. A maioria de seus contos baseia-se em seres e situações inomináveis, tão grotescas que são impossíveis de descrever e que na grande maioria das vezes leva os personagens à insanidade e até mesmo ao suicídio.

E quando a adaptação em questão é sobre uma COR indescritível? É o que faz o filme “A Cor que Caiu do Espaço”, de 2019, dirigido por Richard Stanley, com Nicolas Cage como protagonista. O filme em questão é baseado no conto de mesmo nome, publicado em 1927.

No conto original, que inclusive era o favorito do autor entre suas histórias curtas, um agrimensor faz uma inspeção em uma região próxima à cidade de Arkham, para o projeto de uma barragem que será construída, alagando aquele terreno. O homem busca mais informações a respeito de um local que chama de “ermo destruído”, uma área coberta de cinzas, onde nenhuma vegetação cresce. Ninguém na cidade está disposto a falar a respeito, e ele acaba conhecendo um velho considerado louco que mora próximo de lá.

O fato se passa no início do século XX, em uma propriedade rural. O acesso entre a fazenda e a cidade não era dos melhores, assim como esse “trânsito” das pessoas de um local ao outro. No conto, o meteoro cai, e pesquisadores de uma universidade levam partes dele para serem testadas e estudadas. Nenhum teste conclui nada muito específico, e os fragmentos desaparecem.

Aos poucos, começa-se a notar uma mudança na vegetação, com a colheita tendo que ser totalmente descartada. O mesmo acontece com o leite das vacas. Veterinários são chamados mas não encontram uma causa aparente. Tudo parece ser causado por uma contaminação causada pelo meteorito. As pessoas começam a evitar a propriedade. Os cães e gatos da casa desaparecem. A família, que consome água de um poço na propriedade, também começa a sofrer certas mudanças. Os filhos apresentam comportamentos estranhos, e aos poucos vão morrendo ou desaparecendo. A esposa é trancada no sótão, apresentando um comportamento insano. A família não tem mais nenhum contato com as pessoas da cidade, o único que ainda visita-os é o velho que vive no mato, e que faz o relato da história.

Em seguida, o pai da família se encontra em um estado moribundo. O velho revista a casa e encontra algo indescritível no sótão, que dá a entender que a mulher sofreu algum tipo de mutação.

Junto com autoridades policiais relutantes, eles vão até a casa uma última vez, se deparando com essas emanações de uma luz com cores impossíveis, e o ambiente ao redor fica totalmente degradado. A partir de então, ninguém mais fala sobre os acontecidos lá, e fica o temor de que aquilo ainda habita o fundo do poço.

O filme coloca essa história nos dias de hoje. A família se mudou para lá faz pouco tempo, e estão se acostumando com a vida rural ainda, enquanto a mãe se recupera de um câncer recém tratado. Tem uma breve ambientação, mostrando a criação de alpacas, o cachorro, a plantação de verduras, etc. O casal tem 3 filhos: um piá que não faz nada, um gurizão maconheiro e uma guria bruxinha wicca. Meio nada a ver, mas também não chega a ser um problema. A história segue com a chegada do agrimensor para fazer um levantamento da área para a construção da barragem. A diferença do conto é que aqui o agrimensor chega antes e participa dos acontecimentos, enquanto que no conto ele conhece a área já destruída, décadas depois, e fica sabendo do acontecido por meio de um relato. Tanto que o personagem do velho vizinho não tem muita importância no filme, enquanto que no original ele presenciou tudo e narra a história.

Então o meteoro cai. As autoridades vão lá, o velho vizinho que mora no mato vai lá, um monte de repórteres vai lá. Mas fica por aí, não mostram aqueles testes sendo conduzidos na universidade e tal. E ok, pro ritmo do filme fica até melhor. O meteoro, que no original apresentava uma coloração e uma emanação indescritíveis, fora do espectro visível pelos humanos, no filme é multicolorido e “vivo”, brilhando e oscilando entre o roxo, rosa, violeta…

Com o passar dos dias, o meteoro desaparece e algumas coisas começam a agir de forma estranha. Animais mudam seu comportamento e flores diferentes e muito coloridas começam a desabrochar ao redor da casa. As verduras, ao serem colhidas, apresentam um tamanho e uma aparência muito melhores que o esperado, mas impossíveis de serem consumidas. O sinal de internet e de celular começam a dar problema. As pessoas começam a ficar com comportamentos estranhos, começando pela mãe, que enquanto corta ingredientes para cozinhar, corta dois dedos fora! O pai leva ela pro hospital, deixando os filhos tomando conta da casa e das alpacas. Surgem então alguns lapsos temporais, com situações se repetindo. A gurizada começa a se dar conta que tem alguma coisa muito errada acontecendo, e que provavelmente é culpa do meteoro.

Coisas bizarras seguem acontecendo, culminando em um “ataque” de tentáculos coloridos que saem do poço e fundem a mãe e o filho mais novo. Temos então um troço grotesco, totalmente calcado no horror corporal, e que ficou bizarro e muito massa. Essa criatura não fala, fica só emitindo sons ininteligíveis, e ninguém sabe o que fazer. O pai vai pegar o carro para levar a esposa/filho ao hospital, e o carro não funciona de jeito nenhum. Temos uma típica cena de Nicolas Cage naqueles momentos de raiva insana. Aqui é possível fazer uma observação sobre a ambientação do filme ser nos dias de hoje, com a família rodeada de tecnologias e tal. Isso não faz diferença, porque a influência da cor anula tudo isso, deixando quase que da mesma forma que a família do início do século, como no conto original. Continuando, a mãe é então trancada no sótão, sem ideia de como lidar com ela ainda.

O próximo evento que acontece é com as alpacas. Os bichos tão queridos pelo pai, que seguido fala que investiu uma grana nelas e cuida bem, viram uma coisa medonha, e são exterminadas a tiros de espingarda. Sangue, nojeira e gosma cobrindo o sujeito, no melhor estilo Fome Animal. Mais um ponto pra escala Nicolas Cage de podreira do filme. O pai retorna ao sótão com arma em punho, mandando os filhos saírem e dizendo que vai lidar com o problema. Entende-se que ele vai encher a criatura de chumbo, como fez com as alpacas. Mas não, ele resolve tentar dar algum jeito de reverter aquilo.

Mas as coisas não melhoram, a espiral de demência se aprofunda e os efeitos começam a ser percebidos fora da fazenda também, com animais com mutações aparecendo na região. O agrimensor, (que no filme se chama Ward Phillips, uma homenagem a Howard Phillips Lovecraft) vai até a propriedade junto com o xerife local, temendo que algo de ruim esteja acontecendo com a família. Chegando lá, o pai recebe ambos, todo ensanguentado, agindo como se toda a família estivesse sentada junto dele na sala, quando não há ninguém. Escutam gritos vindos do sótão e correm lá. Encontram o monstrengo mãe/filho atacando a filha, e o pai agora sim resolve com um tiro. Mais sangue e nojeira.

Se encaminhando pro fim do filme, a cor começa a se manifestar de forma muito forte, saindo em grande escala de dentro do poço, mostrando cenas de outros mundos e desintegrando as pessoas afetadas por ela. Isso é mostrado com cenas com efeitos digitais que não são dos melhores. Muita gente reclamou disso, mas sinceramente, não é tão ruim assim não. Pra finalizar, árvores vivas atacam o xerife (que se dá mal) e o agrimensor (que consegue escapar). O poço “explode” em cores, e o local finalmente vira o tal “ermo destruído”, ficando tomado de cinzas e devastação.

Chegamos no fim do filme… a família foi toda destroçada pela cor do espaço, e quem sobrou pra contar a história foi o agrimensor. A cena final mostra ele em cima da barragem, com a paisagem toda alagada já, dizendo que espera que aquele poço e aquela cor estejam enterrados em algum lugar muito profundo, mas que daquela água ele jamais beberá.

O filme consegue adaptar de forma interessante o conto, mesmo com a alteração da ambientação e de certos elementos da história. Os acontecimentos não levam agora mais de um ano, e sim, aparentemente, alguns dias. Alguns personagens têm mais ou menos importância. Mas a essência da história original está toda lá, de uma forma bem executada. A questão da cor, que originalmente é indescritível e fora do campo de visão, seria impossível de mostrar, então foram escolhidas essas cores vibrantes. Não é a mesma coisa, mas funciona! Há pontos chave que aparecem em ambos, como a mãe sendo trancada no sótão, algo habitando o poço, colheita inútil, etc.

Vale a pena assistir, mas vai ser mais aproveitado por quem conhece o trabalho do escritor e já sabe mais ou menos o que esperar. Não é um filme cheio de respostas e que deixa tudo bem explicadinho. Também não é algo cheio de jumpscares (na verdade, não lembro de nenhum).

O final da história é bem semelhante em ambos, com esse receio que de algo ainda habite o poço e que possa contaminar a água da barragem, levando ainda mais destruição para a região. Isso fica em aberto, mas é massa, é o tipo de terror psicológico característico de Lovecraft. Será que algo ainda está lá no fundo da água? Será que ainda é capaz de causar o mesmo estrago? E essa cor, o que era, afinal? Era um ser com consciência, desejos, moral? Ou era apenas alguma substância estranha que veio com o meteoro? Essas dúvidas ficam em aberto, para nunca mais serem respondidas. E nem precisam.